No século XXI, um fenômeno tem
intrigado pensadores de todas as áreas do conhecimento: o discurso de negação
da ciência. No geral, esse fenômeno se caracteriza por alguns traços mais ou
menos acentuados, como, por exemplo, a invalidação por completo de
conhecimentos acumulados pelas ciências humanas e sociais (história, filosofia,
geografia, ciência política, sociologia, antropologia); o ataque moral à
produção artística; a invalidação da importância da literatura; a
deslegitimação de paradigmas consolidados das ciências naturais; o descrédito
dos veículos tradicionais de imprensa e da grande mídia.
Longe de querer esgotar por
completo o debate sobre as características do fenômeno, me lanço à tarefa de pensar
alguns elementos que podem estar na sua origem. Nesse sentido, Ensaio aqui
algumas bases explicativas, focalizando em um elemento fundamental: a natureza
própria da ciência moderna.
Parto da ideia de que a
precariedade do acesso ao ensino formal, bem como de todas as debilidades do
ensino público, somados ao advento da democratização da internet e do acesso em
larga escala às redes socais, concorrem, em boa medida, no sentido de explicar
as origens da negação da ciência. Tudo isso porque, como lembrou o pensador
Umberto Eco, as redes converteram o ‘idiota da aldeia’ em autoridade nos mais
diversos assuntos. Ou seja, as redes sociais deram voz a uma massa gigante de
analfabetos ou semianalfabetos - aproximadamente 70% dos egressos do ensino
básico apresentam problemas de formação - haja vista a dificuldade apresentanda
na leitura e interpretação de um texto de três parágrafos. No século XXI,
segundo Eco, os imbecis têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. O
escritor vai além: os idiotas, que antes envergonhavam-se de suas debilidades e
limitações, agora vociferam o seu orgulho em não saber. Apaixonaram-se pela
ignorância. Transformaram-na em virtude.
Naturalmente, não enxergo esses
dois elementos como os únicos a explicarem o fenômeno de negação da ciência.
Especulo que, além destes, outros pontos sejam extremamente importantes, entre
os quais destaco: a tentativa de reabilitar as tradições religiosas como única
autoridade possível em termos de conhecimento do mundo natural e dos seres
humanos, a profunda polarização ideológica que atravessa a nossa geração e a
‘hiper-politização’ de todas as esferas da vida, bem como a natureza singular
da ciência moderna - que se distingui de todas as tradições de conhecimento
anteriores por adotar como paradigma fundamental a disposição em admitir a
própria ignorância. Me detenho neste último ponto.
Yuval Harari, em seu livro
Sapiens, lembra que a ciência moderna se baseia na sentença latina ‘Ignoramus’
- nós não sabemos -, que nos adverte sobre a ignorância com relação aos
mistérios que envolvem o mundo natural e a vida dos seres humanos. Ela aceita
que nosso conhecimento é limitado, podendo ser equivocado, transitório e
passivo de superação. Nenhum conceito, ideia ou teoria é sagrado e
inquestionável para a ciência moderna, como advertiram pensadores desde René Descartes,
passando por Karl Popper e Thomas Kuhn.
É importante sublinhar mais uma
vez: a ciência moderna está disposta a admitir abertamente a ignorância
coletiva a respeito da maioria das questões mais importantes para a humanidade.
E, vale destacar, não são somente as ciências humanas. Dois exemplos: a
biologia, depois de séculos de pesquisas científicas, abre espaço para
questionamentos sobre como o cérebro cria consciência; os físicos, por sua vez,
admitem que ainda buscam as respostas para as causas do Big-Bang.
Contudo, embora a abertura em
assumir suas limitações tenha tornado a ciência uma tradição muito mais
dinâmica e inovadora que todas as outras tradições de conhecimento anteriores,
é precisamente nessas brechas que o discurso anti-intelectual se consolida e se
respalda moralmente: se a ciência está disposta a admitir ignorância com
relação aos temas mais importantes, isso significa que ela não pode explicar
nada, afirmam chefes políticos e autoridades religiosas. Essa última máxima
está na base da desmoralização dos saberes científicos e alcança uma quantidade
enorme de pessoas através de diversos meios de comunicação em massa – Youtube,
Facebook, Instagram, canais de televisão, rádios, etc.
Então, o saber científico não
deve ser contestado? Deve. Ciência não é dogma. É diminuição da incerteza. Mas
quem contesta esse saber deve apresentar argumentos contundentes, com base em
estudos sólidos, pesquisas e aprofundamento. Os argumentos devem ser pautados
em observações e evidências, não em verdades reveladas e frases de efeito que
enaltecem o desconhecimento como virtude. Do contrário, a contestação se torna
negação irracional, vontade de agarrar-se às próprias certezas. Paixão pela
ignorância.
Encerro o texto destacando: ainda
que as investigações intelectuais sejam repletas de incertezas, apresentando,
quase sempre, mais perguntas do que respostas, vale o esforço de sair da zona
de conforto. Afinal, como lembrava Carl Sagan, devemos medir o nosso progresso
pela coragem de nossas perguntas e pela profundeza de nossas respostas; pela
vontade de aceitar novas verdades e não apenas acreditar naquilo que nos faz
sentirmos bem. Nesse sentido, não resta a menor dúvida de que, na ciência e na
vida, a ignorância não é uma virtude.
Rafael Davino, Historiador, 29.