Paul Ricouer (1912 – 2005) se constituiu como um dos autores mais proeminentes nas discussões envolvendo fenomenologia e hermenêutica e sua aplicabilidade na História. Em especial, dedicou-se em construir um entendimento amplo sobre as noções de tempo, memória e esquecimento. O autor francês percebeu que tais conceitos atravessam a existência humana, e uma investigação sobre seus significados nos ajudam a melhor compreendermos a maneira como historiadores constroem o conhecimento histórico.
Quando falamos de memória, surge uma indelével e perturbadora constatação no campo existencial. Os momentos felizes que porventura vivemos, uma vez que passam, jamais retornam. O tempo tem o poder de iniciar, de fazer durar, mas também de encerrar. Ricouer se apropria de Santo Agostinho e define o tempo como aquilo que é inverso da eternidade. Deus é eterno pois não tem intervalo(início-meio-fim). Ele não dura por um tempo. Ele é e sempre será. Neste sentido, o tempo só existe enquanto há uma alma que o percebe. O tempo é uma dimensão terrena da existência humana. Seu maior objetivo é impor a todos os seres contornos de finitude. Ele nos apavora nos dando a certeza que tudo tem um fim. Conforme vivemos nossas vidas e somos expostos aos encontros com o mundo, percebemos que o tempo inicia, dura e encerra todas nossas experiências. Não por acaso que os gregos associaram o tempo ao deus Chronos, sendo este uma divindade com a capacidade engolir(destruir) todos os objetos à sua frente.
Entretanto, há em nós um componente existencial que nos auxilia na defesa contra os males do tempo. Paul Ricouer, tendo por base as consideações de Santo Agotinho, alega que há em nossa alma uma instância que nos ajuda a manter ou guardar os momentos felizes que porventura vivemos. Essa instância se chama memória. A memória alegre é aquela que é capaz de relembrar ou resgatar o que foi destruído pelo tempo recriando uma representação imagética em nossa alma. Essa representação nós chamamos de lembrança. Algumas delas guardamos conosco quase que para sempre: lembramos das travessuras na infância; dos platônicos amores adolescentes; das intensas aventuras enquanto jovens; das significativas viagens enquanto adulto. Ou até mesmo lembranças mais banais e triviais, como o aroma do biscoito caseiro que nossas vovós nos preparava na infância. Ou o cheiro do perfume de uma pessoa que te afetou genuinamente. A memória salva nossos encontros com a vida através de lembranças que são manifestas em imagens ou sons em nossa alma.
Estes encontros com a vida constroem e tecem nossa subjetividade. É tarefa de nossa própria identidade guardar em nossa memória os feitos que nos marcaram, pois os mesmos nos dizem quem somos e de onde viemos. Utilizamos as fotografias e diários como recursos de modo a melhor cristalizar as imagens e representações deste passado que não queremos que vá por completo. Conforme Ricouer aponta, a memória(mnesis) é uma arma contra o esquecimento(amnesis). Esquecer-se é deixar que o tempo vença. Lembrar-se é tentar flertar com a eternidade. É tentar se achegar a Deus.
Aqui abre-se um campo muito profícuo para um entendimento hermenêutico do trabalho do historiador. Conforme Jorn Rusen aponta, o passado humano, assim com o passado de cada indivíduo, é constituído de uma infinidade de feitos, eventos e acontecimentos. A esmagadora maioria deles estão destruídos, relegados ao esquecimento. Nenhum livro ou enciclopédia histórica seria capaz de resgatar tudo que ocorreu no passado, pois materialmente falando os feitos humanos ocorridos até aqui beiram ao infinito e não haveria material suficiente para registrá-los em sua plenitude.
Neste sentido, a História seleciona os feitos do passado que considera relevante de serem discutidos no presente. Os feitos que julga necessários a serem lembrados, a serem trazidos para nossa memória. Em História do Brasil, todos os alunos do 5° ano do ensino fundamental são iniciados pelo currículo escolar em lembrarem sobre a chegada dos portugueses ao território sul-americano em março de 1500. Consideramos este evento relevante. Temos por um evento fundador de um processo histórico que levaria ao surgimento do Brasil. Em contrapartida, os povos indígenas que viviam no território anteriormente à chegada dos portugueses são, de alguma maneira, esquecidos. Para alguns, seus feitos não são relevantes para serem lembrados, de fixá-los em nossa memória.
A História, portanto, é tudo aquilo que não se passou, tudo aquilo que não caiu no esquecimento. Seu intento é fazer com que a memória sobre certos feitos e eventos se mantenha viva. Fazer seleções de memória, a priori, não se configura como um problema. A injustiça toma forma quando a História se mostra ideológica na seleção da memória. Cometer uma injustiça histórica é selecionar a lembrança de alguns fatos, e se esquecer de outros tendo como critério a discriminação, o preconceito e a intolerância. Memória e esquecimento podem sofrer abusos pela História e quem a pratica.
Estevao Damacena, 31.
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