O príncipe regente de Portugal, D. João VI, tomou uma decisão muito difícil em 1807. Seu reino estava na mira das temidas tropas francesas de Napoleão Bonaparte. A invasão do reino de Portugal era certa, considerando sua opção em ficar do lado da Inglaterra. Essa opção desagradava em muito o general Bonaparte, afinal a Inglaterra era um arqui-inimigo. Em Lisboa, o imperativo moral que se instaurou foi: fiquemos e lutemos ou fugimos e nos salvemos?
Com a ajuda dos ingleses, D. João VI, sua família, amigos, burocratas, assim como toda a corte portuguesa embarcaram às pressas nas naus que os levariam ao Brasil. A corte ali ficaria por mais de uma década, abalando os hábitos e costumes de um país até então extremamente "fechado" ao mundo.
Considerando os códigos de honra e coragem dos homens bem nascidos, a atitude da Corte Portuguesa pode ser enquadrada como covarde. Ainda que a derrota para as tropas napoleônicas eram dadas como certas, os lusitanos poderiam ter tido mais brio e coragem. Poderiam ter permanecido em suas terras e enfrentado o inimigo com todas suas forças. Ainda que perdessem, sua consciência moral estaria tranquila, afinal não fugiram à luta. Entretanto, sabemos que a decisão preterida foi pela fuga. Fuga a um território distante. Território que ficava do outro lado do Atlântico, chamado Estado do Brasil, àquela altura ainda uma colônia do Império Português.
Importante pensarmos que esta fuga estava acoplada a um projeto político maior. Projeto que se revelou como um passo de extrema astúcia. D. João e seus estadistas foram capazes de “salvar” o Império Português. Caso tivessem permanecido em Portugal, certamente seriam capturados por Napoleão e seu poderoso exército. Uma vez derrotados, os portugueses “perderiam” não só o reino de Portugal, mas também suas colônias no além-mar, entre elas a colônia Brasileira. Este cenário de perda do Brasil seria catastrófico. A importância econômica da América Portuguesa dentro das linhas de força do Império era mais que indispensável. Os estadistas portugueses foram uníssonos em preservar esse Império, nem que para isso devessem fugir ao Brasil.
Uma vez que o rei e sua corte fogem ao Brasil, transfere-se o centro gravitacional de poder do Império a um território que Napoleão não poderia chegar facilmente. No limite, D. João VI e sua corte, ao migrarem aos trópicos, passaram a seguinte mensagem: “- os senhores querem nos capturar? Pois cruzem o Atlântico e nos achem nas florestas brasileiras”.
Neste cenário de transferência do centro de poder, o gerenciamento do Império Português deixou de ter Lisboa como cidade sede, e passou a ter o Rio de Janeiro como capital imperial. Neste sentido, o Rio de Janeiro foi a primeira e única cidade na América a sediar a capital de um império europeu. Um feito extraordinário sem dúvidas. Não por acaso que o Rio de Janeiro ao longo do tempo foi se tornando uma cidade muito envaidecida, pomposa e até orgulhosa. Este seu passado lhe credenciava a preservar o status de uma eterna "cidade capital".
Se pelo lado simbólico a corte portuguesa fugiu a seu dever moral de enfrentar as tropas napoleônicas, no plano político sua opção pela fuga se revelou em um plano formidável. Em uma só tacada evitou-se um embate direto com um inimigo mais forte, assim como salvaguardou suas posses coloniais no Atlântico e na Ásia. Embora as piadas brasileiras tentem associar os portugueses à figura caricata de serem sempre "burros" e "atrapalhados", no episódio da transferência da corte devemos sublinhar a astúcia e inteligência dos nossos antigos colonizadores.
Estevão Damacena, mestre em História, 29.

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