Alexis de
Tocqueville foi um dos grandes teóricos e narradores do processo revolucionário
francês de 1789. Seu avô foi
guilhotinado em 1794 no chamado “período do terror”. Catástrofe impulsionada pelo clima de
ódio das classes populares pela elite aristocrata. Tocqueville viveu em momento
de transição brusca nas hierarquias socias da França do século XIX. Seu sangue
aristocrata representava uma ameaça frente aos ressentimentos disseminados pelos revolucionários. Por isso, tinha cautela em assumir-se
nobre.
O filósofo alemão Friedrich Nietzsche também viveu no século XIX, porém não sofreu perseguição alguma em sua vida. Rendia louvores à aristocracia em seus escritos. Dizia-se ter sangue nobre, cuja prova se encontraria em um passado distante na parte de sua família polonesa.
Tocqueville,
sendo verdadeiramente aristocrata, narrou os horrores que uma agitação de massa
pôde causar, por isso detinha enorme cautela em assumir sua classe. Já Nietzsche,
apresentando origem nobre duvidosa, tinha pela aristocracia uma visão um tanto
quanto romântica. Enxergava nela a representação das forças ativas no mundo e
sentia orgulho de pertencê-la, mesmo que em um passado remoto.
Embora
diferentes nestes aspectos, Tocqueville e Nietzsche, coincidentemente, foram
capazes de tecer críticas parecidas sobre a condição do homem no século XIX. Os
dois chegaram à conclusão que o homem chegou em sua “última” fase de desenvolvimento,
aquilo que o próprio Nietzsche conceituaria como o “último homem”. Curiosamente,
este último homem não representava o ápice da evolução da espécie. O “último homem” representava a sua mais completa decadência.
Tocqueville
teve a oportunidade de visitar os Estados Unidos na metade do século XIX e ali documentou
suas observações sobre os americanos. O homem americano era um homem acomodado,
sem brilho, perdido no meio da multidão,
no qual suas necessidades eram supridas por um poder acima deles, chamado
democracia. A democracia transfomou esse homem em eleitor, em números, em um
gado a ser guiado. No limite, Tocqueville acreditava que o homem americano
trocou sua autonomia pelo prazer e segurança que o Estado lhe oferecia.
Nietzsche,
talvez o maior crítico da sociedade europeia no século XIX, também promoveu comentários bastante críticos sobre o estágio existencial de seus semelhantes no continente. Homem
já não capaz de sair em aventuras, de arriscar-se ao desconhecido. Um homem
conectado a um emprego público, suplicando por um salário-mínimo, preocupado
com o seu bem-estar. Um homem que elegeu a fraqueza como um subterfúgio para
justificar sua covardia, sua timidez, sua incapacidade de enfrentar as contingências
da vida.
Em síntese,
o “último homem” na visão de Nietzsche e Tocqueville era o homem que aceitou tornar-se
rebanho em troca do prazer provido pela sociedade de consumo, e pela segurança provida pelo Estado. De
certa forma, este modelo de homem era o oposto moral do homem aristocrata,
cujas virtudes baseavam-se na coragem, no prazer pelo desconhecido, na competição,
na guerra e na vitória. Nietsche e Tocqueville observaram o mundo em uma
transição moral. Era o fim da aristocracia e seus valores de bravura e
distinção, e o florescer de um rebanho medroso e conformado.

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