Thursday, December 24, 2020

O homem de rebanho

 


Alexis de Tocqueville foi um dos grandes teóricos e narradores do processo revolucionário francês de 1789.  Seu avô foi guilhotinado em 1794 no chamado “período do terror”. Catástrofe impulsionada pelo clima de ódio das classes populares pela elite aristocrata. Tocqueville viveu em momento de transição brusca nas hierarquias socias da França do século XIX. Seu sangue aristocrata representava uma ameaça frente aos ressentimentos disseminados pelos revolucionários. Por isso, tinha cautela em assumir-se nobre.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche também viveu no século XIX, porém não sofreu perseguição alguma em sua vida.  Rendia louvores à aristocracia em seus escritos. Dizia-se ter sangue nobre, cuja prova se encontraria em um passado distante na parte de sua família polonesa.

Tocqueville, sendo verdadeiramente aristocrata, narrou os horrores que uma agitação de massa pôde causar, por isso detinha enorme cautela em assumir sua classe. Já Nietzsche, apresentando origem nobre duvidosa, tinha pela aristocracia uma visão um tanto quanto romântica. Enxergava nela a representação das forças ativas no mundo e sentia orgulho de pertencê-la, mesmo que em um passado remoto.

Embora diferentes nestes aspectos, Tocqueville e Nietzsche, coincidentemente, foram capazes de tecer críticas parecidas sobre a condição do homem no século XIX. Os dois chegaram à conclusão que o homem chegou em sua “última” fase de desenvolvimento, aquilo que o próprio Nietzsche conceituaria como o “último homem”. Curiosamente, este último homem não representava o ápice da evolução da espécie. O “último homem” representava a sua mais completa decadência.

Tocqueville teve a oportunidade de visitar os Estados Unidos na metade do século XIX e ali documentou suas observações sobre os americanos. O homem americano era um homem acomodado, sem brilho, perdido no meio da multidão, no qual suas necessidades eram supridas por um poder acima deles, chamado democracia. A democracia transfomou esse homem em eleitor, em números, em um gado a ser guiado. No limite, Tocqueville acreditava que o homem americano trocou sua autonomia pelo prazer e segurança que o Estado lhe oferecia.

Nietzsche, talvez o maior crítico da sociedade europeia no século XIX, também promoveu comentários bastante críticos sobre o estágio existencial de seus semelhantes no continente. Homem já não capaz de sair em aventuras, de arriscar-se ao desconhecido. Um homem conectado a um emprego público, suplicando por um salário-mínimo, preocupado com o seu bem-estar. Um homem que elegeu a fraqueza como um subterfúgio para justificar sua covardia, sua timidez, sua incapacidade de enfrentar as contingências da vida.  

Em síntese, o “último homem” na visão de Nietzsche e Tocqueville era o homem que aceitou tornar-se rebanho em troca do prazer provido pela sociedade de consumo,  e pela segurança provida pelo Estado. De certa forma, este modelo de homem era o oposto moral do homem aristocrata, cujas virtudes baseavam-se na coragem, no prazer pelo desconhecido, na competição, na guerra e na vitória. Nietsche e Tocqueville observaram o mundo em uma transição moral. Era o fim da aristocracia e seus valores de bravura e distinção, e o florescer de um rebanho medroso e conformado.

 

Estevao Damacena, mestre em História, 28

 

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