Wednesday, April 15, 2020

A NEGAÇÃO DA CIÊNCIA OU A PAIXÃO PELA IGNORÂNCIA




No século XXI, um fenômeno tem intrigado pensadores de todas as áreas do conhecimento: o discurso de negação da ciência. No geral, esse fenômeno se caracteriza por alguns traços mais ou menos acentuados, como, por exemplo, a invalidação por completo de conhecimentos acumulados pelas ciências humanas e sociais (história, filosofia, geografia, ciência política, sociologia, antropologia); o ataque moral à produção artística; a invalidação da importância da literatura; a deslegitimação de paradigmas consolidados das ciências naturais; o descrédito dos veículos tradicionais de imprensa e da grande mídia.

Longe de querer esgotar por completo o debate sobre as características do fenômeno, me lanço à tarefa de pensar alguns elementos que podem estar na sua origem. Nesse sentido, Ensaio aqui algumas bases explicativas, focalizando em um elemento fundamental: a natureza própria da ciência moderna.

Parto da ideia de que a precariedade do acesso ao ensino formal, bem como de todas as debilidades do ensino público, somados ao advento da democratização da internet e do acesso em larga escala às redes socais, concorrem, em boa medida, no sentido de explicar as origens da negação da ciência. Tudo isso porque, como lembrou o pensador Umberto Eco, as redes converteram o ‘idiota da aldeia’ em autoridade nos mais diversos assuntos. Ou seja, as redes sociais deram voz a uma massa gigante de analfabetos ou semianalfabetos - aproximadamente 70% dos egressos do ensino básico apresentam problemas de formação - haja vista a dificuldade apresentanda na leitura e interpretação de um texto de três parágrafos. No século XXI, segundo Eco, os imbecis têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. O escritor vai além: os idiotas, que antes envergonhavam-se de suas debilidades e limitações, agora vociferam o seu orgulho em não saber. Apaixonaram-se pela ignorância. Transformaram-na em virtude.
Naturalmente, não enxergo esses dois elementos como os únicos a explicarem o fenômeno de negação da ciência. Especulo que, além destes, outros pontos sejam extremamente importantes, entre os quais destaco: a tentativa de reabilitar as tradições religiosas como única autoridade possível em termos de conhecimento do mundo natural e dos seres humanos, a profunda polarização ideológica que atravessa a nossa geração e a ‘hiper-politização’ de todas as esferas da vida, bem como a natureza singular da ciência moderna - que se distingui de todas as tradições de conhecimento anteriores por adotar como paradigma fundamental a disposição em admitir a própria ignorância. Me detenho neste último ponto.

Yuval Harari, em seu livro Sapiens, lembra que a ciência moderna se baseia na sentença latina ‘Ignoramus’ - nós não sabemos -, que nos adverte sobre a ignorância com relação aos mistérios que envolvem o mundo natural e a vida dos seres humanos. Ela aceita que nosso conhecimento é limitado, podendo ser equivocado, transitório e passivo de superação. Nenhum conceito, ideia ou teoria é sagrado e inquestionável para a ciência moderna, como advertiram pensadores desde René Descartes, passando por Karl Popper e Thomas Kuhn.
É importante sublinhar mais uma vez: a ciência moderna está disposta a admitir abertamente a ignorância coletiva a respeito da maioria das questões mais importantes para a humanidade. E, vale destacar, não são somente as ciências humanas. Dois exemplos: a biologia, depois de séculos de pesquisas científicas, abre espaço para questionamentos sobre como o cérebro cria consciência; os físicos, por sua vez, admitem que ainda buscam as respostas para as causas do Big-Bang.

Contudo, embora a abertura em assumir suas limitações tenha tornado a ciência uma tradição muito mais dinâmica e inovadora que todas as outras tradições de conhecimento anteriores, é precisamente nessas brechas que o discurso anti-intelectual se consolida e se respalda moralmente: se a ciência está disposta a admitir ignorância com relação aos temas mais importantes, isso significa que ela não pode explicar nada, afirmam chefes políticos e autoridades religiosas. Essa última máxima está na base da desmoralização dos saberes científicos e alcança uma quantidade enorme de pessoas através de diversos meios de comunicação em massa – Youtube, Facebook, Instagram, canais de televisão, rádios, etc.  

Então, o saber científico não deve ser contestado? Deve. Ciência não é dogma. É diminuição da incerteza. Mas quem contesta esse saber deve apresentar argumentos contundentes, com base em estudos sólidos, pesquisas e aprofundamento. Os argumentos devem ser pautados em observações e evidências, não em verdades reveladas e frases de efeito que enaltecem o desconhecimento como virtude. Do contrário, a contestação se torna negação irracional, vontade de agarrar-se às próprias certezas. Paixão pela ignorância.
Encerro o texto destacando: ainda que as investigações intelectuais sejam repletas de incertezas, apresentando, quase sempre, mais perguntas do que respostas, vale o esforço de sair da zona de conforto. Afinal, como lembrava Carl Sagan, devemos medir o nosso progresso pela coragem de nossas perguntas e pela profundeza de nossas respostas; pela vontade de aceitar novas verdades e não apenas acreditar naquilo que nos faz sentirmos bem. Nesse sentido, não resta a menor dúvida de que, na ciência e na vida, a ignorância não é uma virtude.


Rafael Davino, Historiador, 29.

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