Ainda no ano de 2015 - em meu singelo quarto de alojamento da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro lugar que fiz minha graduação – lia pela primeira vez o capítulo “Homem cordial” da obra perene de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil.O impacto deste texto em minha compreensão sócio-política da nação brasileira foi arrebatador. Ali fui convencido pelo diagnóstico sedutor que o autor nos propõe. Holanda aponta os empecilhos que nos impede de entrar por completo nas águas da modernidade.
O nosso grande pecado institucional seria a confusão que todo brasileiro faz entre público e privado.A classe intelectual brasileira, assim como a mídia, ainda se dispõe deste “trunfo” quando vão falar dos “entraves” do desenvolvimento do Brasil. Na visão de muitos, nossa transição de uma sociedade patrimonial para o mundo burocrático-legal tem se dado de maneira morosa, truncada e capenga. Por tais razões, há aqueles que acreditam que o Brasil ainda não se inseriu na modernidade, por ainda se ver revestido por relações institucionais defasadas.
O patrimonialismo perene de nossas práticas políticas é visto pela mídia e pelos intelectuais como o grande vilão. A corrupção desenfreada, os privilégios da classe política, o assalto do Estado por interesses privados, o favorecimento de familiares no governo, o “jeitinho brasileiro” são tidos como os elementos definidores do nosso caráter. Situação que nos deixa em dissintonia com os ventos liberais que começaram a soprar no mundo a partir do século XVIII. Nossa perene incapacidade de saber separar o que é publico e o que é privado seria a razão precípua de nosso “atraso”.Sérgio Buarque pintou uma possível saída para estes dilemas. Temos o dever moral de mimetizar o mundo ocidental. Copiá-lo da maneira mais fidedigna possível.
Deveríamos então apostar no fortalecimento das instituições; obliterar os privilégios do funcionalismo público; implementar o caráter efetivamente impessoal no Estado, sem favorecimento de indivíduos e grupos alheios. O Estado deverá se revestir de um ethos impessoal e eficiente, sem o qual não chegaremos à modernidade.Não há como negar a importância deste diagnóstico. Assim como a grande mídia e muitos intelectuais do nosso Brasil(inclusive nosso ministro da educação), sou adepto desta narrativa. É preciso amadurecer nossas instituições para um caminho liberal. Por outro lado, sou um intelectual que tem noção da história do Brasil. Por isso devemos pontuar algumas ponderações.
Mediante tais dilemas, ainda nos cabe a pergunta: será que a mimetização do mundo ocidental – tão bem defendida pela mídia e intelectuais- nos livraria de todos os males? Será que não estaríamos abrindo precedentes para uma descaracterização genocída de nossa própria cultura e história?Fomentar irrefletidamente no Brasil os valores da modernidade europeia consiste em um exercício perigoso. A formação da sociedade brasileira é única e substancial. Desde sua gênese, a constituição do povo brasileiro se fez por um modelo de colonização que escapou em muito aos gélidos modelos institucionais europeus.
A minoria de portugueses brancos que para cá se deslocou teve de apostar na miscigenação, no intercurso sexual com as ameríndias e depois africanas. Sem o intercurso sexual dos portugueses com as índias dos cabelos lisos e do corpo nu, que apimentavam o imaginário sexual daqueles que se viam distante de sua terra natal; sem a ligação sexual ( e também moral) do senhor da casa grande com a escrava da senzala; sem estes fatores os portugueses não teriam logrado tamanho sucesso em seu empreendimento na América.O clima tropical, as dificuldades de fertilidade do solo, as correntes mortíferas dos rios, as secas imponderáveis de nosso sertão, as pestes de insetos, os vermes que atacavam os animais de criadouro, toda esta adversidade forçou os colonizadores portugueses a darem o melhor de si.
A parca quantidade de homens brancos que para cá vinham tivera de desde cedo montar nas índias, conquistá-las seja pelo amor, seja pela dor. Era através do coito que seria garantida a povoação e ocupação do território. Os filhos deste intercurso seriam indivíduos ainda mais adaptados ao meio. Os bandeirantes mamelucos; os filhos da terra: metade índio, metade colonizador. De manhã nas cidades; à tarde na mata a dentro em busca de novos territórios, de mão-de-obra, de ouro.Os portugueses fizeram valer seu histórico de colonização nas Ilhas Atlânticas e no norte da África. No norte do continente africano, há séculos já travavam relações culturais com os árabes, não obstante os embates religiosos. Os portugueses que chegaram ao Brasil já eram seres diferentes de seus próprios pares no continente. Situavam-se na indefinição entre a Europa cristã e a África maometana.
O hibridismo genético era sua marca. Não por acaso que o aprofundamento das raças, quando chegaram ao Brasil, tornou-se a grande marca da colonização.Somos uma sociedade híbrida. Doa a quem doer, isso é imponderável e incontornável. Gilberto Freyre foi certeiro nesta conclusão. Nossa formação histórica nos coloca como uma nação incomparável, como uma país singular em sua formação cultural. A colonização no Brasil remodelou, a partir de elementos endógenos, as formas prontas que a Europa intentou aqui emplacar. A forma liberal de poder no Brasil ganhou contornos próprios, que se coadunaram com o nosso espírito. Inserir o Brasil contemporâneo no “processo civilizador” europeu é, a principio, necessário e inevitável. Sérgio Buarque de Holanda tinha muito de razão.
Precisamos amadurecer nossas instituições. Torná-las menos injustas e aristocráticas e mais inclusivas e democráticas.Agora, temos de nos perguntar até que ponto todo esse furor em extirpar de nossa cultura aquilo que consideramos “atrasado”, “caótico” e “degenerado” consiste em um exercício saudável. Somos uma nação única, com uma formação histórica incomparável. Talvez o nosso "jeitinho" seja aquilo que nos caracteriza enquanto povo brasileiro. E ser brasileiro pode sim ser causa de orgulho.
Estevão Damacena, 27
Estevão Damacena, 27
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