Sunday, April 5, 2020


A PANDEMIA, O ISOLAMENTO E A SOLIDÃO

Por Rafael Davino

Pela primeira vez, estamos presenciando um período onde praticamente todos aqueles que compõe a nossa rede mais próxima de amigos virtuais estão na mesma situação. Estamos momentaneamente (sem sabermos até quando) impossibilitados de alimentar o que parece ser uma competição velada entre nós mesmos por views e likes. Não somos bombardeados com o sofrimento e a angústia, travestidos de consumo (de roupas, sapatos e pessoas), nas baladas e resenhas "top", nas imagens repletas de "plenitude", nas competições por lugares paradisíacos, nas águas límpidas etc., que buscam preencher um vazio, que parece cada maior e mais intenso.

A geração onde as lojas, as boates, as agências de turismo, as revistas de moda, a teologia da prosperidade, as celebridades e as sub-celebridades, @s blogueir@s fitness, zens e os coachs ditam as regras do discurso otimista, consumista e individualista - que exigem que estejamos sempre sorrindo e alegres, esperando o melhor independente das tragédias que nos cercam -, foi lançada à realidade com a pandemia do corona vírus. Agora, as pessoas não sabem como agir. Estão desnorteadas com a força e a imprevisibilidade da natureza. Estão perplexas com a fragilidade da vida e não há discurso motivacional de faixada que possa resolver uma situação que requer, sobretudo, pragmatismo e paciência.

Com o isolamento recomendado pelas autoridades sanitárias, fomos colocados diante de nós mesmos. Tudo o que temos, agora, são as nossas próprias companhias. Estamos numa situação que exige o enfrentamento diário do eu, do silêncio dos nossos quartos, do barulho de nossas cabeças, de nossos pensamentos inquietos, da profundeza de nossos abismos. Nesse sentido, uma pergunta se faz necessária: com quem você está quando está sozinho?

Vejo muitas pessoas reclamando desse encontro, alegando que o isolamento traz uma sensação constante de tédio, vazio e solidão. Tudo isso se traduz em insegurança, medo, melancolia e um sentimento enorme de desamparo. Nesse momento, novas formas de comportamento se fazem necessarias.

Transforme o seu tédio, em paz. O seu vazio, em espaço. Busque preencher esse espaço com conhecimento e criatividade. Leia, leia muito (você vai ter tempo). Estude. Se aprofunde em qualquer coisa que você goste ou que possa gostar. Assista filmes (os de comédia, os de ação, os dramas, os clássicos). Ouça musica. Permita-se aprender com a arte.
Aprecie a companhia daqueles que estão realmente por perto. Converse, em total atenção, com os que estão mais próximos de voce. Preste atenção em cada palavra, em suas expressões. Aproveite, também, o ócio. Exercite sua dimensão criativa: escreva sobre os filmes e livros, escreva sobre as músicas, escreva sobre o cotidiano. Escreva sobre suas impressões do mundo. Faça planos, mas pense no futuro com menos ansiedade.

Quando o que sobra é sua companhia, não se assuste. Não tema em ouvir-se, em abraçar-se. Em acolher seus medos e inseguranças. Não tenha medo dos seus encontros consigo mesmo a qualquer hora do dia ou da noite. Aproveite-se. Faça da sua solidão, sua liberdade. Faça da sua vida, sua própria obra de arte.

Em tempos de isolamento provocado por uma catástrofe natural, podemos parafrasear um grande compositor da música popular brasileira: não tome cuidado, não tome cuidado consigo. Você não é perigoso. Viver é que é o grande perigo


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