Tuesday, May 5, 2020

A queda do muro de Berlim e o fim de uma era





Por muito tempo, a disciplina de História teve como magna preocupação o registro dos grandes eventos. Utilizar-se da escrita para narrar um acontecimento importante foi a arma que os homens encontraram para lutar contra o esquecimento. História é tudo aquilo que ainda não passou. É um evento do passado que se faz presente através dos relatos. Há eventos que não podem ser esquecidos. A queda do muro de Berlim em novembro de 1989 é um deles.

Sabemos que o mundo se viu em um contexto de muitas incertezas após a 2° Guerra. Subsequente ao conflito armado que dizimou milhões de vidas, surgia a Guerra Fria, embate que forçou o planeta a experimentar uma divisão de ideias entre Washington e Moscou. Neste contexto, em 1949 nascia a República Democrática Alemã, também conhecida por Alemanha Oriental. A RDA optou por rejeitar o ocidente e decidiu seguir o caminho político do bloco socialista do leste europeu.
A “cortina de ferro”, expressão do primeiro ministro Britânico Winston Churchill em discuro histórico em 1946, foi um recurso linguístico utilizado para identificar a divisão de ideias que rasgava ao meio a Europa Ocidental e Oriental. Por ironia da história, essa “cortina de ferro” imaginária ganhou forma sólida em 1961, quando a RDA decidiu erigir um muro, dividindo a cidade de Berlim em duas esferas.

Cidades construindo muros não é algo novo na história humana. As urbes do mundo antigo se utilizavam deste recurso como forma de se proteger de ataques inimigos. A RDA tinha isso em mente. Desejava que os ventos de liberdade do lado Ocidental não penetrassem em suas instituicões, tampouco no espírito de seu povo. Todavia, o muro teve outro propósito, talvez único na história da humanidade. Intentou prender seu próprio povo dentro de suas fronteiras. Sacrificou a liberdade de ir-e-vir dos seus cidadãos em nome de um projeto maior chamado Comunismo. A torre de comando na fronteira foi autorizada pelo líder Erich Honnecker a se utilizar de força letal(“order to fire”) nos individuos que insistissem em passar ao ocidente. Era o exemplo máximo do totalitarismo.

28 anos depois, em 1989, o mundo se via talvez em um outro espírito de seu tempo. Os clamores por liberdade ecoavam nos quatro cantos dos continentes. Estudantes, operários, intelectuais, artistas, todos à sua maneira materializavam as “primaveras políticas” nos países do leste europeu, clamando por relações mais horizontais, mais liberdade, mais autonomia, mais vida. Esses ventos de “liberalização” sopraram para dentro dos ortodoxos Partidos Comunistas, forçando suas lideranças a atenderem estes novos anseios.

A RDA viu no ano de 1989 mais de 200 mil de seus cidadãos migrarem para o lado ocidental do muro, seduzidos pelo sonho de uma vida mais farta e menos penosa. A situação diplomática escalava, e o ocidente forçava a RDA a abrir suas fronteiras, permitindo a livre circulação de seus cidadãos. Neste clima de animosidade, Mikail Gorbachev, líder da URSS, visitou a RDA em outubro de 1989 junto a outros integrantes do Pacto de Varsóvia. Sua palavras foram, “as questões diplomáticas entre a RDA e a Alemanha Ocidental serão decididas em Berlim e não em Moscou.”

Gorbachev anunciava ao mundo que Moscou não estaria mais disposta a interferir em seus Estados satélites, prática comum até alguns anos antes. A nova postura de Moscou representava a gradual liberalização dos regimes socialistas do leste europeu. Em novembro de 1989, sob uma liderança reformista de Hans Modrow, a RDA decidiu abrir sua fronteira com o Ocidente, dando início à queda do muro de Berlim e à reunificação da Alemanha, um sonho que muitos à época não imaginariam que pudessem testemunhar. O muro representava mais que apenas pedras e cimento. Era a materializaçao de um mundo divido, de abusos de poder, de sonhos interrompidos, de vidas ceifadas. Um muro que aquele momento se desintegrou sem grandes esforços; veio ao chão pelas forças da história e de seu espírito que impele as ações dos indivíduos. Cabe a nós jamais deixarmos que tal evento se perca no esquecimento.

Estevão Damacena, 27

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