Wednesday, April 14, 2021

Os paulistas e a construção do Brasil




É lugar comum no imaginário popular brasileiro os paulistas serem vistos como pessoas disciplinadas ao trabalho e por isso mais propensos ao sucesso. Enquanto o carioca arruma desculpa para sair do expediente mais cedo e curtir o samba na pedra do sal, o paulista rejeita a vadiagem e parece sempre pronto a fazer aquelas horas-extras que irão garantir o ponto a mais com seu chefe. O legal de estudar nosso passado é que esses imaginários populares não raro têm alguma associação com nossa história.

Há centenas de anos atrás, quando o Brasil era ainda um território pertencente ao reino de Portugal, os paulistas curiosamente já angariavam a fama de serem os mais corajosos e desbravadores.  Fazendo comitivas de “bandeiras” e por isso chamado de “bandeirantes”, os camaradas de São Paulo criavam expedições rumo ao  interior do selvagem território brasileiro. Largando o conforto e a brisa dos povoamentos à beira das praias no litoral, eles subiam as montanhas, desmatavam a mata-virgem brasileira, fundavam povoamentos, capturavam índios mais “rebeldes” e lhes vendiam a fazendeiros sedentos por almas escravas. Os paulistas por muito tempo foram os principais agentes da colonização no imenso território brasileiro, chegando a lugares que Portugal, por si só, não conseguiria.

Na história dos Estados Unidos, os filmes de Hollywood supervalorizam o chamado “velho oeste”. Lugar que ainda faz parte do imaginário social de muita gente. Lugar de caos, onde a justiça formal não alcançava. O velho oeste provocava medo e receio naqueles que gostariam de visitá-lo. Somente os mais corajosos estavam dispostos a caírem na aventura enfrentá-lo, buscando adrenalina, fama e terras.

Aqui nos trópicos, podemos dizer que durante a colonização portuguesa também havia um “velho oeste”. Eles eram representados pelos chamados “sertões”.  Sertões eram os lugares de fronteiras. Lugares cujos habitantes eram selvagens e cujo acesso era penoso. A vegetação densa das matas brasileiras, o clima extremamente úmido, as pragas de insetos, os animais selvagens, a topografia irregular, as inundações dos rios, tribos indígenas que recebiam à flechada qualquer visitante inesperado; tudo isso compunha o retrato indômito dos sertões no Brasil, dificultando em muito uma correta exploração do território.

As autoridades representantes do poder de Portugal chamavam os paulistas de os “Mamelucos de São Paulo”. Mameluco era o indíviduo nascido do casamento entre brancos e índios. De manhã estavam nas cidades rezando a missa em português, e a tarde estavam nas matas caçando animais e falando tupi. Os paulistas eram seres híbridos. Eram a indefinição entre o civilizado e o selvagem. Esta disposição genética os tornaram os mais adaptados ao seu meio. Foram os únicos capazes de desbravar nosso inóspito território. Foram os pioneiros em domesticarem os sertões brasileiros, permitindo que a coroa portuguesa mais tarde ali fundasse povoamentos, trazendo assim a lei, a ordem e a fé católica.

Nos dias de hoje, esse espírito bandeirante se manifesta, ainda que com uma outra roupagem, na ética geral dos paulistas. Historicamente os paulistas sempre tiveram orgulho de sua história, desenvolvendo uma forte cultura regional. Na comparação com os cariocas, os paulistas se vangloriam de sua austeridade moral que se materializa em sua consolidada ética ao trabalho. Talvez seja por isso que, mesmo morando em uma selva de pedra, ainda sejam capazes de se sentirem felizes.

Estevão Damacena, 28.

 


 

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