Wednesday, January 6, 2021

NASCI VACA DE PRESÉPIO. DESGARREI PRA ME SALVAR.



Acordei com esses versos do Alceu na cabeça. 


A música é "colcha de retalhos", do disco Saudade de Pernambuco (1979). 


Interessante lembrar que, há mais ou menos oito anos atrás, outra música que frequentava minha cabeça todos os dias era "vaca profana", de Caetano Veloso. 


As duas canções têm algo em comum: ao mesmo tempo que lembram do nosso "espírito de rebanho" ou "espírito de manada" - como, inclusive, advetira Nietzsche -, falam sobre (a necessidade) (d)o despertar da consciência. Sobre liberdade.


A vaca profana do Caetano é aquela que, ao "pôr os córneos acima da manada", enxerga além. Vê mais longe.


E, ao fazê-lo, profana o sagrado do rebanho que teima em seguir rumo ao absurdo da caretice, do culto à ignorância, do aprisionamento à zona de conforto, da morte voluntária - de sensibilidade e afetos, sobretudo. 


O Alceu, nessa música, diz tudo isso em poucas palavras: "atropelando a hipocrisia, no dia-a-dia, verso a verso. Nasci vaca de presépio. Desgarrei pra me salvar".


Eu não nunca sei o porquê as palavras escorrem por meus dedos...


Mas sei que escrevo essas linhas enquanto seguro nas mãos o livro Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto - livro ácido, que desvela as contradicões da sociedade brasileira, e sobre o qual volto a escrever aqui outro dia. 


E sei, também, que o sagrado de hoje é o "novo normal". E o novo normal é, simplesmente, é a normalização de tudo o que é mais absurdo em nossos tempos: da negação da ciência ao discurso anti-vacina; das taxas de analfabetismo à tentativa de deslegitimar a importância das ciências humanas no processo educacional. 


As vacas continuam seguindo a manada. Marchando, voluntariamente, rumo ao abate. 


É preciso desgarrar prara se salvar. 



Rafael Davino, 30, professor. 

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