Monday, December 28, 2020

A IMPORTÂNCIA DA TRANSFORMAÇÃO DOS PROFESSORES EM TEMPOS DE ISOLAMENTO SOCIAL


No contexto da pandemia, a educação imergiu em processo de transformações sem precedentes. Os modelos de ensino-aprendizagem sobre os quais nós, educadores, tínhamos domínio foram postos em cheque. Passamos, e ainda estamos passando, por um profundo processo de questionamento
e pelo desafio de construção de um formato de aulas online realmente eficaz para os educandos.

No início do isolamento social, boa parte dos esforços se concentrou no domínio de novas tecnologias digitais. Nesse contexto, os professores entenderam a necessidade de reinvenção e aquisição de novas habilidades e se transformaram, em menos de um mês, em protagonistas do processo de migração do modo presencial para o modelo à distância. O enfrentamento corajoso dos desafios trouxe alegria e esperança ao conjunto da comunidade escolar. Todavia, é de conhecimento geral que a nova situação, à qual todos fomos submetidos, vem produzindo um estado de desconforto, cansaço, insegurança, ansiedade e frustração permanentes.

Mesmo em meio ao diagnóstico esboçado, é necessário sublinhar que o contexto pandêmico, bem como as consequentes medidas de isolamento, ainda não se encerrou. Nesse sentido, é importante que estejamos sensíveis e atentos, compreendendo que as constantes mudanças pelas quais o mundo passa requerem, especialmente de nós educadores, formas inovadoras de compreensão e intervenção sobre a realidade.

Em síntese: partindo da perspectiva de que ainda estamos diante de um fenômeno sem precedentes e escrevendo, todos os dias, uma história que não sabemos o final, desejo que não nos falte sensibilidade, resiliência e muito investimento (de tempo, sobretudo) em nossos respectivos processos de formação continuada. Esses três elementos podem ser fundamentais na construção permanente de bases intelectuais e emocionais sólidas, no sentido de enfrentarmos os desafios impostos pela pandemia e caminharmos firmes no propósito da construção de uma educação pautada em valores empáticos e cidadãos, de profundo amor e respeito à condição humana. 

Rafael Davino, 30, professor.

Thursday, December 24, 2020

O homem de rebanho

 


Alexis de Tocqueville foi um dos grandes teóricos e narradores do processo revolucionário francês de 1789.  Seu avô foi guilhotinado em 1794 no chamado “período do terror”. Catástrofe impulsionada pelo clima de ódio das classes populares pela elite aristocrata. Tocqueville viveu em momento de transição brusca nas hierarquias socias da França do século XIX. Seu sangue aristocrata representava uma ameaça frente aos ressentimentos disseminados pelos revolucionários. Por isso, tinha cautela em assumir-se nobre.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche também viveu no século XIX, porém não sofreu perseguição alguma em sua vida.  Rendia louvores à aristocracia em seus escritos. Dizia-se ter sangue nobre, cuja prova se encontraria em um passado distante na parte de sua família polonesa.

Tocqueville, sendo verdadeiramente aristocrata, narrou os horrores que uma agitação de massa pôde causar, por isso detinha enorme cautela em assumir sua classe. Já Nietzsche, apresentando origem nobre duvidosa, tinha pela aristocracia uma visão um tanto quanto romântica. Enxergava nela a representação das forças ativas no mundo e sentia orgulho de pertencê-la, mesmo que em um passado remoto.

Embora diferentes nestes aspectos, Tocqueville e Nietzsche, coincidentemente, foram capazes de tecer críticas parecidas sobre a condição do homem no século XIX. Os dois chegaram à conclusão que o homem chegou em sua “última” fase de desenvolvimento, aquilo que o próprio Nietzsche conceituaria como o “último homem”. Curiosamente, este último homem não representava o ápice da evolução da espécie. O “último homem” representava a sua mais completa decadência.

Tocqueville teve a oportunidade de visitar os Estados Unidos na metade do século XIX e ali documentou suas observações sobre os americanos. O homem americano era um homem acomodado, sem brilho, perdido no meio da multidão, no qual suas necessidades eram supridas por um poder acima deles, chamado democracia. A democracia transfomou esse homem em eleitor, em números, em um gado a ser guiado. No limite, Tocqueville acreditava que o homem americano trocou sua autonomia pelo prazer e segurança que o Estado lhe oferecia.

Nietzsche, talvez o maior crítico da sociedade europeia no século XIX, também promoveu comentários bastante críticos sobre o estágio existencial de seus semelhantes no continente. Homem já não capaz de sair em aventuras, de arriscar-se ao desconhecido. Um homem conectado a um emprego público, suplicando por um salário-mínimo, preocupado com o seu bem-estar. Um homem que elegeu a fraqueza como um subterfúgio para justificar sua covardia, sua timidez, sua incapacidade de enfrentar as contingências da vida.  

Em síntese, o “último homem” na visão de Nietzsche e Tocqueville era o homem que aceitou tornar-se rebanho em troca do prazer provido pela sociedade de consumo,  e pela segurança provida pelo Estado. De certa forma, este modelo de homem era o oposto moral do homem aristocrata, cujas virtudes baseavam-se na coragem, no prazer pelo desconhecido, na competição, na guerra e na vitória. Nietsche e Tocqueville observaram o mundo em uma transição moral. Era o fim da aristocracia e seus valores de bravura e distinção, e o florescer de um rebanho medroso e conformado.

 

Estevao Damacena, mestre em História, 28

 

A História, memória e o esquecimento.

     Paul Ricouer (1912 – 2005) se constituiu como um dos autores mais proeminentes nas discussões envolvendo feno menologia e he rmenêut...