Sabe aquela sensação gostosa quando descarregamos nossa raiva em alguém? Quando o sofrimento de outro nos traz contentamento? A isso nós chamamos de sadismo. Ser sádico é sentir
prazer quando vemos o outro sofrer.
Em
sua infância, Brás cubas, personagem principal do romance de Machado de Assis,
relembra seus feitos sádicos dos tempos juvenis. Quando menino, detinha um escravo
em sua casa. Como forma de diversão, pedia ao moleque que ficasse em seus
apoios. Montava-lhe no dorso e fazia do negrinho um potro imaginário. Performava-se
cavaleiro em cima do menino escravo, com a vara na mão, obrigando o menino a dar
voltas pelo espaço da sala. O moleque escravo exausto da brincadeira, após algumas
horas, dizia “aai, inhooooô!”. O sinhozinho respondia, “vamos, besta!”.
Gilberto
Freyre nos revela muitos outros exemplos destes impulsos de violência que a
escravidão brasileira catalizava. Senhoras que retiravam os olhos das escravas,
ou quando lhe cortavam os peitos, ao descobrirem as aventuras lúbricas de seus
maridos nas senzalas.
Estes exemplos nos mostram que a escravidão brasileira infelizmente criou o
vício do sadismo em todos nós. Podemos ver manifestações dele em outras áreas, tais como na
administração pública e na política. O mandonismo e o autoritarismo de muitos políticos
brasileiros parecem ser manifestações deste passado que insiste em nos
perseguir. Marechal Floriano Peixoto, conhecido como “marechal mão de ferro”: nada simpático a diálogos, e muito vigoroso para a violência. Por que não
pensar em políticos que, diante da ordem democrática, não aceitavam transições
de poderes. Sempre ávidos para manterem-se no
poder. A exemplo, Getúlio Vargas no Estado Novo, ou o contraditório “liberal”
Carlos Lacerda, defendendo golpes de Estado quando lhe favorecia.
De
certa forma, todo brasileiro esconde consigo um chicote do senhor de escravo,
pronto para virar a mesa ou dar porrada nos marginais e desordeiros que lhe pertubarem. Quando ele
mesmo não pode fazê-lo, legitima a polícia. Da mesma maneira que a população deliciava-se
em ver escravos fujões sendo castigados por senhores na praça pública, nossa
sociedade hoje não esconde sua veia sádica em sentir-se bem quando pivetes são
tratados com truculência pela polícia.
O administrador público também não foge à
regra. Quando chega um cidadão em sua repartição, o funcionário já lhe dificulta
o processo. Faz o pobre esperar séculos para ser atendido. Trata-lhe com gélida
indiferença; exige-lhe pilhas de documentos. Caso falte algum, com a cara
sínica argumenta: “desculpa senhor, não conseguiremos avançar com seu
processo”. Sabemos que é fachada. Por dentro está sorrindo, regozigando-se por
ter tido o poder de fazer padecer mais um miserável durante seu dia de expediente.
É ou não é um autêntico senhor de escravos? Porém este veste terno e gravata.
Percebemos que a formação cidadã do
brasileiro carrega estes vícios. Herdados de um passado escravocrata com
diferenças sociais gigantescas, representandas na relação senhor-escravo. As
marcas deste passado estão aí no nosso dia-a-dia para quem quiser ver, por
vezes tão naturais que já não nos causa espanto. O brasileiro, embora tão
cordial e amoroso por um lado, por outro não se embarassa em querer ser senhor, passando por cima da lei e da ética para satisfazer seus desejos.


