Tuesday, April 21, 2020

O senhor de escravo em todos nós






Sabe aquela sensação gostosa quando descarregamos nossa raiva em alguém? Quando o sofrimento de outro nos traz contentamento? A isso nós chamamos de sadismo. Ser sádico é sentir prazer quando vemos o outro sofrer.  
Em sua infância, Brás cubas, personagem principal do romance de Machado de Assis, relembra seus feitos sádicos dos tempos juvenis. Quando menino, detinha um escravo em sua casa. Como forma de diversão, pedia ao moleque que ficasse em seus apoios. Montava-lhe no dorso e fazia do negrinho um potro imaginário. Performava-se cavaleiro em cima do menino escravo, com a vara na mão, obrigando o menino a dar voltas pelo espaço da sala. O moleque escravo exausto da brincadeira, após algumas horas, dizia “aai, inhooooô!”. O sinhozinho respondia, “vamos, besta!”. 
Gilberto Freyre nos revela muitos outros exemplos destes impulsos de violência que a escravidão brasileira catalizava. Senhoras que retiravam os olhos das escravas, ou quando lhe cortavam os peitos, ao descobrirem as aventuras lúbricas de seus maridos nas senzalas.
Estes exemplos nos mostram que a escravidão brasileira infelizmente criou o vício do sadismo em todos nós. Podemos ver manifestações dele em outras áreas, tais como na administração pública e na política. O mandonismo e o autoritarismo de muitos políticos brasileiros parecem ser manifestações deste passado que insiste em nos perseguir. Marechal Floriano Peixoto, conhecido como “marechal mão de ferro”: nada simpático a diálogos, e muito vigoroso para a violência. Por que não pensar em políticos que, diante da ordem democrática, não aceitavam transições de poderes. Sempre ávidos para manterem-se no poder. A exemplo, Getúlio Vargas no Estado Novo, ou o contraditório “liberal” Carlos Lacerda, defendendo golpes de Estado quando lhe favorecia.
  De certa forma, todo brasileiro esconde consigo um chicote do senhor de escravo, pronto para virar a mesa ou dar porrada nos marginais e desordeiros que lhe pertubarem. Quando ele mesmo não pode fazê-lo, legitima a polícia. Da mesma maneira que a população deliciava-se em ver escravos fujões sendo castigados por senhores na praça pública, nossa sociedade hoje não esconde sua veia sádica em sentir-se bem quando pivetes são tratados com truculência pela polícia.
 O administrador público também não foge à regra. Quando chega um cidadão em sua repartição, o funcionário já lhe dificulta o processo. Faz o pobre esperar séculos para ser atendido. Trata-lhe com gélida indiferença; exige-lhe pilhas de documentos. Caso falte algum, com a cara sínica argumenta: “desculpa senhor, não conseguiremos avançar com seu processo”. Sabemos que é fachada. Por dentro está sorrindo, regozigando-se por ter tido o poder de fazer padecer mais um miserável durante seu dia de expediente. É ou não é um autêntico senhor de escravos? Porém este veste terno e gravata.
  Percebemos que a formação cidadã do brasileiro carrega estes vícios. Herdados de um passado escravocrata com diferenças sociais gigantescas, representandas na relação senhor-escravo. As marcas deste passado estão aí no nosso dia-a-dia para quem quiser ver, por vezes tão naturais que já não nos causa espanto. O brasileiro, embora  tão cordial e amoroso por um lado, por outro não se embarassa em querer ser senhor, passando por cima da lei e da ética para satisfazer seus desejos. 

 Estevão Damacena, 27


Wednesday, April 15, 2020

A NEGAÇÃO DA CIÊNCIA OU A PAIXÃO PELA IGNORÂNCIA




No século XXI, um fenômeno tem intrigado pensadores de todas as áreas do conhecimento: o discurso de negação da ciência. No geral, esse fenômeno se caracteriza por alguns traços mais ou menos acentuados, como, por exemplo, a invalidação por completo de conhecimentos acumulados pelas ciências humanas e sociais (história, filosofia, geografia, ciência política, sociologia, antropologia); o ataque moral à produção artística; a invalidação da importância da literatura; a deslegitimação de paradigmas consolidados das ciências naturais; o descrédito dos veículos tradicionais de imprensa e da grande mídia.

Longe de querer esgotar por completo o debate sobre as características do fenômeno, me lanço à tarefa de pensar alguns elementos que podem estar na sua origem. Nesse sentido, Ensaio aqui algumas bases explicativas, focalizando em um elemento fundamental: a natureza própria da ciência moderna.

Parto da ideia de que a precariedade do acesso ao ensino formal, bem como de todas as debilidades do ensino público, somados ao advento da democratização da internet e do acesso em larga escala às redes socais, concorrem, em boa medida, no sentido de explicar as origens da negação da ciência. Tudo isso porque, como lembrou o pensador Umberto Eco, as redes converteram o ‘idiota da aldeia’ em autoridade nos mais diversos assuntos. Ou seja, as redes sociais deram voz a uma massa gigante de analfabetos ou semianalfabetos - aproximadamente 70% dos egressos do ensino básico apresentam problemas de formação - haja vista a dificuldade apresentanda na leitura e interpretação de um texto de três parágrafos. No século XXI, segundo Eco, os imbecis têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. O escritor vai além: os idiotas, que antes envergonhavam-se de suas debilidades e limitações, agora vociferam o seu orgulho em não saber. Apaixonaram-se pela ignorância. Transformaram-na em virtude.
Naturalmente, não enxergo esses dois elementos como os únicos a explicarem o fenômeno de negação da ciência. Especulo que, além destes, outros pontos sejam extremamente importantes, entre os quais destaco: a tentativa de reabilitar as tradições religiosas como única autoridade possível em termos de conhecimento do mundo natural e dos seres humanos, a profunda polarização ideológica que atravessa a nossa geração e a ‘hiper-politização’ de todas as esferas da vida, bem como a natureza singular da ciência moderna - que se distingui de todas as tradições de conhecimento anteriores por adotar como paradigma fundamental a disposição em admitir a própria ignorância. Me detenho neste último ponto.

Yuval Harari, em seu livro Sapiens, lembra que a ciência moderna se baseia na sentença latina ‘Ignoramus’ - nós não sabemos -, que nos adverte sobre a ignorância com relação aos mistérios que envolvem o mundo natural e a vida dos seres humanos. Ela aceita que nosso conhecimento é limitado, podendo ser equivocado, transitório e passivo de superação. Nenhum conceito, ideia ou teoria é sagrado e inquestionável para a ciência moderna, como advertiram pensadores desde René Descartes, passando por Karl Popper e Thomas Kuhn.
É importante sublinhar mais uma vez: a ciência moderna está disposta a admitir abertamente a ignorância coletiva a respeito da maioria das questões mais importantes para a humanidade. E, vale destacar, não são somente as ciências humanas. Dois exemplos: a biologia, depois de séculos de pesquisas científicas, abre espaço para questionamentos sobre como o cérebro cria consciência; os físicos, por sua vez, admitem que ainda buscam as respostas para as causas do Big-Bang.

Contudo, embora a abertura em assumir suas limitações tenha tornado a ciência uma tradição muito mais dinâmica e inovadora que todas as outras tradições de conhecimento anteriores, é precisamente nessas brechas que o discurso anti-intelectual se consolida e se respalda moralmente: se a ciência está disposta a admitir ignorância com relação aos temas mais importantes, isso significa que ela não pode explicar nada, afirmam chefes políticos e autoridades religiosas. Essa última máxima está na base da desmoralização dos saberes científicos e alcança uma quantidade enorme de pessoas através de diversos meios de comunicação em massa – Youtube, Facebook, Instagram, canais de televisão, rádios, etc.  

Então, o saber científico não deve ser contestado? Deve. Ciência não é dogma. É diminuição da incerteza. Mas quem contesta esse saber deve apresentar argumentos contundentes, com base em estudos sólidos, pesquisas e aprofundamento. Os argumentos devem ser pautados em observações e evidências, não em verdades reveladas e frases de efeito que enaltecem o desconhecimento como virtude. Do contrário, a contestação se torna negação irracional, vontade de agarrar-se às próprias certezas. Paixão pela ignorância.
Encerro o texto destacando: ainda que as investigações intelectuais sejam repletas de incertezas, apresentando, quase sempre, mais perguntas do que respostas, vale o esforço de sair da zona de conforto. Afinal, como lembrava Carl Sagan, devemos medir o nosso progresso pela coragem de nossas perguntas e pela profundeza de nossas respostas; pela vontade de aceitar novas verdades e não apenas acreditar naquilo que nos faz sentirmos bem. Nesse sentido, não resta a menor dúvida de que, na ciência e na vida, a ignorância não é uma virtude.


Rafael Davino, Historiador, 29.

Sunday, April 5, 2020


A PANDEMIA, O ISOLAMENTO E A SOLIDÃO

Por Rafael Davino

Pela primeira vez, estamos presenciando um período onde praticamente todos aqueles que compõe a nossa rede mais próxima de amigos virtuais estão na mesma situação. Estamos momentaneamente (sem sabermos até quando) impossibilitados de alimentar o que parece ser uma competição velada entre nós mesmos por views e likes. Não somos bombardeados com o sofrimento e a angústia, travestidos de consumo (de roupas, sapatos e pessoas), nas baladas e resenhas "top", nas imagens repletas de "plenitude", nas competições por lugares paradisíacos, nas águas límpidas etc., que buscam preencher um vazio, que parece cada maior e mais intenso.

A geração onde as lojas, as boates, as agências de turismo, as revistas de moda, a teologia da prosperidade, as celebridades e as sub-celebridades, @s blogueir@s fitness, zens e os coachs ditam as regras do discurso otimista, consumista e individualista - que exigem que estejamos sempre sorrindo e alegres, esperando o melhor independente das tragédias que nos cercam -, foi lançada à realidade com a pandemia do corona vírus. Agora, as pessoas não sabem como agir. Estão desnorteadas com a força e a imprevisibilidade da natureza. Estão perplexas com a fragilidade da vida e não há discurso motivacional de faixada que possa resolver uma situação que requer, sobretudo, pragmatismo e paciência.

Com o isolamento recomendado pelas autoridades sanitárias, fomos colocados diante de nós mesmos. Tudo o que temos, agora, são as nossas próprias companhias. Estamos numa situação que exige o enfrentamento diário do eu, do silêncio dos nossos quartos, do barulho de nossas cabeças, de nossos pensamentos inquietos, da profundeza de nossos abismos. Nesse sentido, uma pergunta se faz necessária: com quem você está quando está sozinho?

Vejo muitas pessoas reclamando desse encontro, alegando que o isolamento traz uma sensação constante de tédio, vazio e solidão. Tudo isso se traduz em insegurança, medo, melancolia e um sentimento enorme de desamparo. Nesse momento, novas formas de comportamento se fazem necessarias.

Transforme o seu tédio, em paz. O seu vazio, em espaço. Busque preencher esse espaço com conhecimento e criatividade. Leia, leia muito (você vai ter tempo). Estude. Se aprofunde em qualquer coisa que você goste ou que possa gostar. Assista filmes (os de comédia, os de ação, os dramas, os clássicos). Ouça musica. Permita-se aprender com a arte.
Aprecie a companhia daqueles que estão realmente por perto. Converse, em total atenção, com os que estão mais próximos de voce. Preste atenção em cada palavra, em suas expressões. Aproveite, também, o ócio. Exercite sua dimensão criativa: escreva sobre os filmes e livros, escreva sobre as músicas, escreva sobre o cotidiano. Escreva sobre suas impressões do mundo. Faça planos, mas pense no futuro com menos ansiedade.

Quando o que sobra é sua companhia, não se assuste. Não tema em ouvir-se, em abraçar-se. Em acolher seus medos e inseguranças. Não tenha medo dos seus encontros consigo mesmo a qualquer hora do dia ou da noite. Aproveite-se. Faça da sua solidão, sua liberdade. Faça da sua vida, sua própria obra de arte.

Em tempos de isolamento provocado por uma catástrofe natural, podemos parafrasear um grande compositor da música popular brasileira: não tome cuidado, não tome cuidado consigo. Você não é perigoso. Viver é que é o grande perigo


A História, memória e o esquecimento.

     Paul Ricouer (1912 – 2005) se constituiu como um dos autores mais proeminentes nas discussões envolvendo feno menologia e he rmenêut...