Wednesday, January 20, 2021

Tudo bem no natal do ano que vem: uma crônica sobre o tempo, a vida e a morte.

 





Nas minhas aulas, sempre digo: a questão fundamental não é sobre o filme que você escolhe assistir, mas sim como assistiu ao filme que você escolheu. 


Nessa férias, assisti duas vezes ao filme "Tudo bem no natal do ano que vem" - título assistido por 26 milhões de contas na Netflix em menos de 28 dias.


Comecei o filme de maneira desinteressada, e até quase de má vontade (por imaginar que se tratava de mais um besteirol brasileiro), mas o correr da obra começa a fazer sentido e me chamou. 


O filme, ambientado na cidade do Rio de Janeiro, se passa na virada do dia 24 para o dia 25 de Dezembro. No natal de 2009 para 2010.


Nele, o personagem Jorge (interpretado por Leandro Hassum) parece viver o seu inferno astral nessa época do ano: odiando tudo o que diz respeito a uma das nossas datas mais queridas e, não menos importante, tendo que aturar a (indesejável) família de sua esposa.


Fato é que Jorge amaldiçoa o natal e, como efeito rebote, recai sobre ele a maldição: a partir de então, ele estará condenado a acordar em todo dia 24 de dezembro, sem lembrar absolutamente nada que vivera ao longo de todo o ano. Como se o ano inteiro passasse em, apenas, uma dia. 


Quase como um Click (filme protagonizado por Adam Sandler) à brasileira, "tudo bem no natal do ano que vem" parece expressar algumas das questões mais presentes de nossa era: a angústia com a percepção da velocidade da passagem do tempo e a inevitabilidade da morte. 


Todos os anos nos sentimos como o personagem de Leandro Hassum: é como se tivéssemos piscado e o tempo voou. Quando percebemos, já estamos no período das festas de fim de ano.


Sempre estamos ocupados, executando milhões de tarefas simultaneamente (olhando somente para nós mesmos e esquecendo completamente os outros), que não nos sobra tempo para as brincadeiras dos filhos, para as demandas d@s companheir@s ou mesmo para apreciar a beleza, a complexidade e a singularidade da existência. Afinal, tempo é dinheiro e deve ser gasto em algo "realmente útil".


Como adverte o filósofo Byung-Chul Han, nos exploramos a nós mesmos achando que estamos nos realizando (...) e vivemos com a angústia de não estarmos fazendo tudo o que poderia ser feito.


Fica aquela sensação de vazio, de algo por completar: de todos os projetos pessoais deixados de lado, por todo o tempo mal aproveitado e pelas pessoas que ficam pelo caminho.... Quando nos damos conta, nós não vimos o ano.


Como diz o personagem Jorge:


"Eu não vi o ano ... na verdade, eu não vi a minha vida inteira passar." 


O enredo parece clichê, mas a verdade é que poucos atentam para a importância da mensagem: tempo é vida. Muitos só dão conta disso na hora de partirem para sempre! 


Chorei, como se estivesse diante da minha vida ao assistir aquele filme.


Aliás, como destaca Aristóteles na Poética, a arte tem esse papel de nos colocar diante das questões permanentes da existência. O imperativo da finitude é uma delas. 


Memento Mori (lembre-se da morte) diziam os escravos aos generais que passavam pelos arcos do triunfo em Roma. Lembrar que o tempo passa, e que a morte é condição da existência, é importante para nos lembramos, também, que a nossa vida e o nosso tempo são os bens mais preciosos que possuímos. 


Usá-los da forma mais sábia e soberana é o melhor presente que podemos nos dar. 



Wednesday, January 6, 2021

NASCI VACA DE PRESÉPIO. DESGARREI PRA ME SALVAR.



Acordei com esses versos do Alceu na cabeça. 


A música é "colcha de retalhos", do disco Saudade de Pernambuco (1979). 


Interessante lembrar que, há mais ou menos oito anos atrás, outra música que frequentava minha cabeça todos os dias era "vaca profana", de Caetano Veloso. 


As duas canções têm algo em comum: ao mesmo tempo que lembram do nosso "espírito de rebanho" ou "espírito de manada" - como, inclusive, advetira Nietzsche -, falam sobre (a necessidade) (d)o despertar da consciência. Sobre liberdade.


A vaca profana do Caetano é aquela que, ao "pôr os córneos acima da manada", enxerga além. Vê mais longe.


E, ao fazê-lo, profana o sagrado do rebanho que teima em seguir rumo ao absurdo da caretice, do culto à ignorância, do aprisionamento à zona de conforto, da morte voluntária - de sensibilidade e afetos, sobretudo. 


O Alceu, nessa música, diz tudo isso em poucas palavras: "atropelando a hipocrisia, no dia-a-dia, verso a verso. Nasci vaca de presépio. Desgarrei pra me salvar".


Eu não nunca sei o porquê as palavras escorrem por meus dedos...


Mas sei que escrevo essas linhas enquanto seguro nas mãos o livro Recordações do Escrivão Isaías Caminha, de Lima Barreto - livro ácido, que desvela as contradicões da sociedade brasileira, e sobre o qual volto a escrever aqui outro dia. 


E sei, também, que o sagrado de hoje é o "novo normal". E o novo normal é, simplesmente, é a normalização de tudo o que é mais absurdo em nossos tempos: da negação da ciência ao discurso anti-vacina; das taxas de analfabetismo à tentativa de deslegitimar a importância das ciências humanas no processo educacional. 


As vacas continuam seguindo a manada. Marchando, voluntariamente, rumo ao abate. 


É preciso desgarrar prara se salvar. 



Rafael Davino, 30, professor. 

A História, memória e o esquecimento.

     Paul Ricouer (1912 – 2005) se constituiu como um dos autores mais proeminentes nas discussões envolvendo feno menologia e he rmenêut...