Por muito tempo, a disciplina de História teve como
magna preocupação o registro dos grandes eventos. Utilizar-se da escrita para narrar
um acontecimento importante foi a arma que os homens encontraram para lutar
contra o esquecimento. História é tudo aquilo que ainda não passou. É um evento
do passado que se faz presente através dos relatos. Há eventos que não podem
ser esquecidos. A queda do muro de Berlim em novembro de 1989 é um deles.
Sabemos que o mundo se viu em um contexto de
muitas incertezas após a 2° Guerra. Subsequente ao conflito armado que dizimou
milhões de vidas, surgia a Guerra Fria, embate que forçou o planeta a
experimentar uma divisão de ideias entre Washington e Moscou. Neste contexto, em
1949 nascia a República Democrática Alemã, também conhecida por Alemanha
Oriental. A RDA optou por rejeitar o ocidente e decidiu seguir o caminho
político do bloco socialista do leste europeu.
A “cortina de ferro”, expressão do primeiro
ministro Britânico Winston Churchill em discuro histórico em 1946, foi um
recurso linguístico utilizado para identificar a divisão de ideias que rasgava
ao meio a Europa Ocidental e Oriental. Por ironia da história, essa “cortina de
ferro” imaginária ganhou forma sólida em 1961, quando a RDA decidiu erigir um
muro, dividindo a cidade de Berlim em duas esferas.
Cidades construindo muros não é algo novo na
história humana. As urbes do mundo antigo se utilizavam deste recurso como
forma de se proteger de ataques inimigos. A RDA tinha isso em mente. Desejava
que os ventos de liberdade do lado Ocidental não penetrassem em suas
instituicões, tampouco no espírito de seu povo. Todavia, o muro teve outro
propósito, talvez único na história da humanidade. Intentou prender seu próprio
povo dentro de suas fronteiras. Sacrificou a liberdade de ir-e-vir dos seus cidadãos
em nome de um projeto maior chamado Comunismo. A torre de comando na fronteira
foi autorizada pelo líder Erich Honnecker a se utilizar de força letal(“order
to fire”) nos individuos que insistissem em passar ao ocidente. Era o exemplo
máximo do totalitarismo.
28 anos depois, em 1989, o mundo se via talvez em
um outro espírito de seu tempo. Os clamores por liberdade ecoavam nos quatro cantos dos continentes. Estudantes, operários, intelectuais, artistas, todos à sua maneira
materializavam as “primaveras políticas” nos países do leste europeu, clamando
por relações mais horizontais, mais liberdade, mais autonomia, mais vida. Esses
ventos de “liberalização” sopraram para dentro dos ortodoxos Partidos Comunistas,
forçando suas lideranças a atenderem estes novos anseios.
A RDA viu no ano de 1989 mais de 200 mil de
seus cidadãos migrarem para o lado ocidental do muro, seduzidos pelo sonho de
uma vida mais farta e menos penosa. A situação diplomática escalava, e o ocidente
forçava a RDA a abrir suas fronteiras, permitindo a livre circulação de seus
cidadãos. Neste clima de animosidade, Mikail Gorbachev, líder da URSS, visitou
a RDA em outubro de 1989 junto a outros integrantes do Pacto de Varsóvia. Sua
palavras foram, “as questões diplomáticas entre a RDA e a Alemanha Ocidental
serão decididas em Berlim e não em Moscou.”
Gorbachev anunciava ao mundo que Moscou não estaria mais disposta a interferir em seus Estados satélites, prática comum até
alguns anos antes. A nova postura de Moscou representava a gradual
liberalização dos regimes socialistas do leste europeu. Em novembro de 1989,
sob uma liderança reformista de Hans Modrow, a RDA decidiu abrir sua fronteira
com o Ocidente, dando início à queda do muro de Berlim e à reunificação da
Alemanha, um sonho que muitos à época não imaginariam que pudessem testemunhar. O
muro representava mais que apenas pedras e cimento. Era a materializaçao de um
mundo divido, de abusos de poder, de sonhos interrompidos, de vidas ceifadas. Um muro que aquele momento se desintegrou sem grandes esforços; veio ao chão pelas forças da história e de seu espírito que impele as ações dos indivíduos. Cabe a nós jamais deixarmos que tal evento se perca no esquecimento.
Estevão Damacena, 27
