Monday, March 30, 2020

Na solidão escutamos a voz que nos convida a se consertar



Por Estevão Damacena

Em um mundo em que seus habitantes estão sedentos por novidades e consumo, permanecer dentro de casa é possivelmente um estorvo. Agora temos a oportunidade de descobrir mais sobre a máxima do filósofo francês Blaise Pascal, “o homem será feliz quando aprender ficar consigo mesmo dentro de seu quarto”. O silêncio é o principal caminho para ouvirmos nosso ser interior.

Conviver e enfrentar a solidão não nos foi ensinado. Não aprendemos a nutrir carinho e cuidado com o ser dentro de nós. Levamos nossa vida de qualquer maneira, investindo em hábitos distrativos, quando não destrutivos. “Ficar consigo mesmo” seria desligar-se do bombardeio do mundo exterior, e se conectar àquele que está contigo desde que você nasceu. Conectar-se àquela voz que vem de dentro. Negligenciamos esta voz a todo momento. 

A voz que nos diz que assistir aquele video no youtube será perca de tempo, e nos sentiremos envergonhados ao terminar. Aquela voz que de antemão te diz que rolar o feed de notícias de seu facebook não te levará a lugar nenhum, mas trará sim descontentamento. Aquela voz que te diz para pegar leve com a bebida, pois o alcoolismo pode ser uma realidade em sua vida.  Ela tenta nos ajudar a acertar nossa vida. Mas estamos condicionados à fraqueza. A excitação destes hábitos é mais forte. Prefirimos o barulho externo, o prazer momentâneo, o entretenimento, a distração. O hedonismo é o nosso Deus. Todavia, insistir nestes hábitos nos torna mais do que não somos, e menos do que poderíamos ser.

Jordan Peterson em livro 12 rules for life diz “take care of yourself as you would take of others”, "cuide-se como você cuidaria de outros”. Cuidar-se, tratar-se com respeito e beatitude se configura em uma atitude de coragem. Requer sacríficio. Requer obedecermos essa voz interior. Podemos chamá-la de consciência, espírito amigo(ou santo), ou vocação.  “Vocação” em sua raíz etimológica se traduz como “aquele que chama”, ou, “a voz que chama”.  Essa voz que chama nos convida a pavimentar nosso destino.

Aproveite a solidão e o silêncio para cuidar de si. Para ouvir esta voz. É ela que nos ajudará consertar nossas vidas. Mesmo que seus erros do passado insistem em te convencer do contrário. Perdoar outros talvez seja mais fácil do que perdoar a si mesmo. Conserte-se, e o mundo colaborará. No silêncio, podemos sim ser felizes.  

Estevão Damacena, 27


Sunday, March 29, 2020

O "jeitinho brasileiro" é brasileiro



Ainda no ano de 2015 - em meu singelo quarto de alojamento da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro lugar que fiz minha graduação – lia pela primeira vez o capítulo “Homem cordial” da obra perene de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil.O impacto deste texto em minha compreensão sócio-política da nação brasileira foi arrebatador. Ali fui convencido pelo diagnóstico sedutor que o autor nos propõe. Holanda aponta os empecilhos que nos impede de entrar por completo nas águas da modernidade. 

O nosso grande pecado institucional seria a confusão que todo brasileiro faz entre público e privado.A classe intelectual brasileira, assim como a mídia, ainda se dispõe deste “trunfo” quando vão falar dos “entraves” do desenvolvimento do Brasil. Na visão de muitos, nossa transição de uma sociedade patrimonial para o mundo burocrático-legal tem se dado de maneira morosa, truncada e capenga. Por tais razões, há aqueles que acreditam que o Brasil ainda não se inseriu na modernidade, por ainda se ver revestido por relações institucionais defasadas.

O patrimonialismo perene de nossas práticas políticas é visto pela mídia e pelos intelectuais como o grande vilão. A corrupção desenfreada, os privilégios da classe política, o assalto do Estado por interesses privados, o favorecimento de familiares no governo, o “jeitinho brasileiro” são tidos como os elementos definidores do nosso caráter. Situação que nos deixa em dissintonia com os ventos liberais que começaram a soprar no mundo a partir do século XVIII. Nossa perene incapacidade de saber separar o que é publico e o que é privado seria a razão precípua de nosso “atraso”.Sérgio Buarque pintou uma possível saída para estes dilemas. Temos o dever moral de mimetizar o mundo ocidental. Copiá-lo da maneira mais fidedigna possível. 

Deveríamos então apostar no fortalecimento das instituições; obliterar os privilégios do funcionalismo público; implementar o caráter efetivamente impessoal no Estado, sem favorecimento de indivíduos e grupos alheios. O Estado deverá se revestir de um ethos impessoal e eficiente, sem o qual não chegaremos à modernidade.Não há como negar a importância deste diagnóstico. Assim como a grande mídia e muitos intelectuais do nosso Brasil(inclusive nosso ministro da educação), sou adepto desta narrativa. É preciso amadurecer nossas instituições para um caminho liberal. Por outro lado, sou um intelectual que tem noção da história do Brasil. Por isso devemos pontuar algumas ponderações.

Mediante tais dilemas, ainda nos cabe a pergunta: será que a mimetização do mundo ocidental – tão bem defendida pela mídia e intelectuais- nos livraria de todos os males? Será que não estaríamos abrindo precedentes para uma descaracterização genocída de nossa própria cultura e história?Fomentar irrefletidamente no Brasil os valores da modernidade europeia consiste em um exercício perigoso. A formação da sociedade brasileira é única e substancial. Desde sua gênese, a constituição do povo brasileiro se fez por um modelo de colonização que escapou em muito aos gélidos modelos institucionais europeus. 

A minoria de portugueses brancos que para cá se deslocou teve de apostar na miscigenação, no intercurso sexual com as ameríndias e depois africanas. Sem o intercurso sexual dos portugueses com as índias dos cabelos lisos e do corpo nu, que apimentavam o imaginário sexual daqueles que se viam distante de sua terra natal; sem a ligação sexual ( e também moral) do senhor da casa grande com a escrava da senzala; sem estes fatores os portugueses não teriam logrado tamanho sucesso em seu empreendimento na América.O clima tropical, as dificuldades de fertilidade do solo, as correntes mortíferas dos rios, as secas imponderáveis de nosso sertão, as pestes de insetos, os vermes que atacavam os animais de criadouro, toda esta adversidade forçou os colonizadores portugueses a darem o melhor de si. 

A parca quantidade de homens brancos que para cá vinham tivera de desde cedo montar nas índias, conquistá-las seja pelo amor, seja pela dor. Era através do coito que seria garantida a povoação e ocupação do território. Os filhos deste intercurso seriam indivíduos ainda mais adaptados ao meio. Os bandeirantes mamelucos; os filhos da terra: metade índio, metade colonizador. De manhã nas cidades; à tarde na mata a dentro em busca de novos territórios, de mão-de-obra, de ouro.Os portugueses fizeram valer seu histórico de colonização nas Ilhas Atlânticas e no norte da África. No norte do continente africano, há séculos já travavam relações culturais com os árabes, não obstante os embates religiosos. Os portugueses que chegaram ao Brasil já eram seres diferentes de seus próprios pares no continente. Situavam-se na indefinição entre a Europa cristã e a África maometana. 

O hibridismo genético era sua marca. Não por acaso que o aprofundamento das raças, quando chegaram ao Brasil, tornou-se a grande marca da colonização.Somos uma sociedade híbrida. Doa a quem doer, isso é imponderável e incontornável. Gilberto Freyre foi certeiro nesta conclusão. Nossa formação histórica nos coloca como uma nação incomparável, como uma país singular em sua formação cultural. A colonização no Brasil remodelou, a partir de elementos endógenos, as formas prontas que a Europa intentou aqui emplacar. A forma liberal de poder no Brasil ganhou contornos próprios, que se coadunaram com o nosso espírito. Inserir o Brasil contemporâneo no “processo civilizador” europeu é, a principio, necessário e inevitável. Sérgio Buarque de Holanda tinha muito de razão. 

Precisamos amadurecer nossas instituições. Torná-las menos injustas e aristocráticas e mais inclusivas e democráticas.Agora, temos de nos perguntar até que ponto todo esse furor em extirpar de nossa cultura aquilo que consideramos “atrasado”, “caótico” e “degenerado” consiste em um exercício saudável. Somos uma nação única, com uma formação histórica incomparável. Talvez o nosso "jeitinho" seja aquilo que nos caracteriza enquanto povo brasileiro. E ser brasileiro pode sim ser causa de orgulho.

Estevão Damacena, 27

Nietzsche and Peterson can help the "millennials"


Some Psychologists are calling the current youth generation as “millennials”. Young folks who were born  1984 and after are being seen as people with a lack of beliefs, a lack of energy, a lack of will power to accomplish tasks and goals. They, par excellence, contracted the nihilism disease which has been too much disseminated on society. In consequence, they are no longer able to pursue dreams, because everything is losing its meaning, its magic, its incantation. They are the “underground” man, as Dostoevsky says. No perspectives accompanied by laziness whose condition was paved by all the conform and protection parents gave them. The millennial is a picture of what we can affirm as passive nihilism.

Nietzsche is well known as “the philosopher of the hammer”. His intentions were to shake all the “idols” society had constructed. For Idols, Nietzsche means all our idealistic system, all that ideals which deny life itself and transport us to a place beyond. Nietzsche wanted us to attempt to the real-life here and now because that’s the only and last one.
I have seen many people making a huge misunderstanding, calling Niezstche as the father of our post-modernism current ideals, and consequently associating Nietzsche’s ideas with this rising of the millennials. Being more specifically, people blame him as the sparkler of this huge nihilism we are living today, but that is not true.

Nietzsche not only fought against this existential state, but also explained it by somehow. Our current nihilism is the consequence of an event that Nietzsche called “The death of God”. Another common mistake is to believe that Nietzsche was the guy responsible for “killing” God with his “hammer philosophy”, but that is a huge misunderstanding also. When Nietzsche said, “God is dead”, he is actually doing a statement about an event that already happened, rather than proclaiming by himself such fact. He is saying that modernity “murdered” God with its freak chasing to reason. They replaced God for Science. Undoubtedly the death of god was one of the most significant “events” from modern society, once until then what people had had as belief systems were depended deeply by the Religion.

The negative outcome of this fact was the rising of this passive nihilism we are seeing. When people say that “the belief in God is not the truth”, we are opening a door to affirm that “everything is false”. The disbelief in God collapsed the belief system of society and that is one of the reasons in nowadays we are seeing a deep and almost an irreversible situation whereby people are no longer able to believe in anything. Everything is seen as an illusion. Our generation is no longer able to pursue a career, a home purchasing, a family building, nevertheless all these goals that for many years made society people be “movement” by somehow. We are in the inertia. We are a sick society, no doubts about it.
But here is the question. Is there any solution for that? Are those possible people overcome nihilism?  Nietzsche pointed out one: embrace suffering.

The inescapability of suffering is something that all of us have to be aware of.  Whenever we are alive, we will suffer. Life is tragic and malevolent. And many people see this condition as a reason to stuck and stop to dream, cause everything will succumb. Fair enough. Life is tragic and we will all die. So the best option is to surrender and be faithless? That is one option but not the only.

Why not reevaluate suffering?  Once we are all in, and we are all going to suffer, why not escape from immediate pleasure and apply our existence for something which will make our life worth living? Is it will bring suffering and pain? It will, of course. But here is the paradox in Nietzsche's approach. When you suffer for something which is worth and you know it will bring value, our brain liberates dopamine, giving us pleasure long term. We tend to believe that pain and pleasure are disconnected, but they aren’t. They are the two faces of the same coin. Pursuing distract behaviors is pleasurable in the moment, but it will bring you suffering in the long term. Try to reverse it. Suffer now and live better in the future. Suffering is something will accompany anyway, but try to direct your pain for something worth, for a goal you want to accomplish and see how more fulfillment your life will be. 

Estevão Damacena, 27












A História, memória e o esquecimento.

     Paul Ricouer (1912 – 2005) se constituiu como um dos autores mais proeminentes nas discussões envolvendo feno menologia e he rmenêut...