Monday, March 15, 2021

A angústia de viver



Freud em sua singular genialidade foi capaz de estabelecer paralelos importantes entre a ética e a psicanálise. Em última instância, a pergunta que se faz é: de que maneira nossas escolhas morais são influenciadas pelo mundo consciente e inconsciente de nossas mentes?

Nas idas e vindas de nossa moral, percebemos que quando tudo está indo bem em nossas vidas, somos mais permissivos e indulgentes. Porém, quando algum infortúnio nos sobrevém, ponderamos nossas ações, estabelecendo assim restrições e sacrifícios.

Para explicar tal fenômeno, Freud diz que o destino é um elemento substitutivo da instância parental. Toda criança sente o indelével medo de perder o amor de seus pais, pois a solidão e o desamparo são difíceis de suportar. Quando a criança age e percebe que sua ação coloca em risco o amor dos pais, ela então se depara com o sentimento de culpa ou arrependimento do mau que fez. Esse sentimento de culpa a leva aceitar castigos e restrições de seus instintos, para que então seja possível pagar o dano cometido e assim recuperar o amor perdido.

Quando adultos, agimos da mesma maneira quanto ao destino.  Quando nossos encontros com a vida são atravessados por infortúnios, somos também levados ao sentimento de culpa. A internalização da culpa se dá pela constatação de que o destino deixou de nos amar e agora nos impõe sofrimento. Em nossas mentes, as tribulações são sinais de que não sou mais amado por essa instância superior.  Para que seu amor regresse, devo então me comportar bem, tomar ações eticamente corretas.

Lembramos do ladrão que roubava melões e, ao cometer tal ato novamente, percebeu que a fruta desta vez estava amarga. Diante deste fim não desejado, o ladrão questiona-se: “foi este o primeiro melão que eu roubei”? Enquanto os melões vinham doces e prazerosos ao paladar, o ladrão jamais ponderou sobre seu ato primeiro, o fato de tê-los roubado. Porém, quando o infortúnio de ter pego um melão amargo se sucedeu, o ato imoral agora introjeta-se em sua consciência, podendo então sentir-se culpado.

Importante pensar que essa situação difere-se das sociedades antigas. Nelas, quando as desgraças chegavam, atribuía-se a culpa ao fetiche e nunca a si mesmos. Porém, em nossa atual civilização, o sentimento de culpa é permanente e ela é depositada inteiramente nos indivíduos. Essa culpa constante se transforma em neurose. Os indivíduos precisam renunciar seus instintos em favor das ações éticas corretas, na esperança de que o destino possa ser benevolente com eles. Entretanto, não importando o quão virtuosos possamos ser, a vida e suas contingências sempre encontram novos meios de nos abater. O homem então se vê duplamente infeliz. Primeiro por está constantemente renunciando seus desejos primários e segundo devido os infortúnios escaparem ao seu controle.

Constante angústia e remorso são as sensações que nos acompanham. Esse retrato psíquico representa o que Freud chama de "mal-estar na civilização”. Progresso, tecnologia, saúde e higiene, feitos fantásticos do mundo civilizado, foram possíveis ao custo de permanente renúncia instintual. O preço que pagamos para tais benesses continua sendo muito alto. O homem, ainda que sinta-se mais seguro e confortável na civilização, todavia não consegue escapar da angústia que o persegue.

Por Estevão Damacena, 28.


A História, memória e o esquecimento.

     Paul Ricouer (1912 – 2005) se constituiu como um dos autores mais proeminentes nas discussões envolvendo feno menologia e he rmenêut...