Monday, June 15, 2020

Nietzsche e o sentimento de culpa




Existe uma literatura vasta sobre o processo mental que nos faz sentir culpados. O sentimento de culpa emerge na consciência, nos pensamentos regidos pelo Ego. O Ego, atormentado pelas regras morais que vêm de fora, conhecido como super-ego, convence-se que fez algo de errado, e por isso encaminha as punições necessárias como forma de coibir seus pecados. Quando o sujeito acredita ser culpado, ele tortura-se mentalmente(ou fisicamente), pois acredita que todo crime deve de ter um castigo correspondente a fim de que haja uma compensação, uma redenção.

 Pensando em termos históricos e antropológicos, essa relação entre crime e castigo, não foi invenção do código penal que toda sociedade minimamente impõe a seus habitantes. Friedrich Nietzsche em seu clássico livro A genealogia da moral costura a ideia de que crime-castigo tem sua origem na perene relação entre credor e devedor.

Aquele que toma algo emprestado, o devedor,  precisa conceder uma garantia ao seu credor de que irá lhe pagar. O devedor coloca à disposição do credor algo que se dispõe e que controla. Como garantia do pagamento, ele penhora, além de objetos materias também objetos afetivos, tais como sua esposa, seus filhos ou até mesmo sua própria vida. Caso o devedor não cumpra com o acordo, o castigo entra em ação como uma forma deliberada de o credor ser compensando pelo dano que recebeu. A essa compensação nós chamamos justiça.

Neste caso que relatamos, o castigo vem como uma força externa em que o devedor não controla. Por mais cuidadoso que seja, na eventualidade de o acordo ser descumprido, o credor tem a prerrogativa de castigar. O castigo é a forma de reparação pelo dano sofrido.  Nestas circunstâncias, tudo que o devedor tem de fazer é se resignar. Houve um cálculo de ações cujo fim não foi conforme esperado, e por isso sobrevirá sobre o devedor algo indesejado. O castigo entra em cena como elemento compensador pelo dano que ele cometeu. O que cabe ao devedor é aceitar tal destino, como algo que está fora de seu controle. Uma vez castigado, há redenção. Não permanecia na mente do devedor “eu sou culpado”. Sua “culpa” foi liquidada pelo castigo.

Entretanto o que Niezsche nos ensina é que após anos e anos dessa relação no plano social, ela também se entranhou no âmbito psicológico. Desenvolvemos um credor interno. Esse credor interno se chama consciência. Essa consciência o filósofo alemão chama de má-consciência. A má-consciência age como o credor que anseia por um castigo-compensação quando cometemos delitos, pecados. A única maneira dessa culpa se dissipar é através do castigo, auto-flagelo. Ela é má pois, diferentemente da situação anterior, a má-consciência está sempre buscando maneiras de achar-se culpada. Se antes o devedor se via livre da culpa ao ser castigado, a má-consciencia continua nos acusando mesmo após o castigo.

Portanto, dependendo do aprofundamento da má-consciencia em nossa psique, esse sentimento de culpa pode não achar um castigo compensandor o suficiente. O caminhoneiro que acidentalmente atropela uma criança causando seu óbito. Por mais que ele possa cumprir sua pena integralmente na cadeia, ao sair, não conseguiu esquecer o ato e ainda se sente “culpado”. Sua consciência enquanto credora ainda está cobrando uma compensação pelo dano que cometeu, compensação essa que possivelmente  nunca virá.

A História, memória e o esquecimento.

     Paul Ricouer (1912 – 2005) se constituiu como um dos autores mais proeminentes nas discussões envolvendo feno menologia e he rmenêut...