Wednesday, August 16, 2023

A História, memória e o esquecimento.



    Paul Ricouer (1912 – 2005) se constituiu como um dos autores mais proeminentes nas discussões envolvendo fenomenologia e hermenêutica e sua aplicabilidade na História. Em especial, dedicou-se em construir um entendimento amplo sobre as noções de tempo, memória e esquecimento. O autor francês percebeu que tais conceitos atravessam a existência humana, e uma investigação sobre seus significados nos ajudam a melhor compreendermos a maneira como historiadores constroem o conhecimento histórico. 


    Quando falamos de memória, surge uma indelével e perturbadora constatação no campo existencial. Os momentos felizes que porventura vivemos, uma vez que passam, jamais retornam. O tempo tem o poder de iniciar, de fazer durar, mas também de encerrar. Ricouer se apropria de Santo Agostinho e define o tempo como aquilo que é inverso da eternidade. Deus é eterno pois não tem intervalo(início-meio-fim). Ele não dura por um tempo. Ele é e sempre será. Neste sentido, o tempo só existe enquanto há uma alma que o percebe. O tempo é uma dimensão terrena da existência humana. Seu maior objetivo é impor a todos os seres contornos de finitude. Ele nos apavora nos dando a certeza que tudo tem um fim. Conforme vivemos nossas vidas e somos expostos aos encontros com o mundo, percebemos que o tempo inicia, dura e encerra todas nossas experiências. Não por acaso que os gregos associaram o tempo ao deus Chronos, sendo este uma divindade com a capacidade engolir(destruir) todos os objetos à sua frente. 


Entretanto, há em nós um componente existencial que nos auxilia na defesa contra os males do tempo. Paul Ricouer, tendo por base as consideações de Santo Agotinho, alega que há em nossa alma uma instância que nos ajuda a manter ou guardar os momentos felizes que porventura vivemos. Essa instância se chama memória. A memória alegre é aquela que é capaz de relembrar ou resgatar o que foi destruído pelo tempo recriando uma representação imagética em nossa alma. Essa representação nós chamamos de lembrança. Algumas delas guardamos conosco quase que para sempre: lembramos das travessuras na infância; dos platônicos amores adolescentes; das intensas aventuras enquanto jovens; das significativas viagens enquanto adulto. Ou até mesmo lembranças mais banais e triviais, como o aroma do biscoito caseiro que nossas vovós nos preparava na infância. Ou o cheiro do perfume de uma pessoa que te afetou genuinamente. A memória salva nossos encontros com a vida através de lembranças que são manifestas em imagens ou sons em nossa alma.


    Estes encontros com a vida constroem e tecem nossa subjetividade. É tarefa de nossa própria identidade guardar em nossa memória os feitos que nos marcaram, pois os mesmos nos dizem quem somos e de onde viemos. Utilizamos as fotografias e diários como recursos de modo a melhor cristalizar as imagens e representações deste passado que não queremos que vá por completo. Conforme Ricouer aponta, a memória(mnesis) é uma arma contra o esquecimento(amnesis).  Esquecer-se é deixar que o tempo vença. Lembrar-se é tentar flertar com a eternidade. É tentar se achegar a Deus.


    Aqui abre-se um campo muito profícuo para um entendimento hermenêutico do trabalho do historiador. Conforme Jorn Rusen aponta, o passado humano, assim com o passado de cada indivíduo, é constituído de uma infinidade de feitos, eventos e acontecimentos. A esmagadora maioria deles estão destruídos, relegados ao esquecimento. Nenhum livro ou enciclopédia histórica seria capaz de resgatar tudo que ocorreu no passado, pois materialmente falando os feitos humanos ocorridos até aqui beiram ao infinito e não haveria material suficiente para registrá-los em sua plenitude. 


    Neste sentido, a História seleciona os feitos do passado que considera relevante de serem discutidos no presente. Os feitos que julga necessários a serem lembrados, a serem trazidos para nossa memória. Em História do Brasil, todos os alunos do ano do ensino fundamental são iniciados pelo currículo escolar em lembrarem sobre a chegada dos portugueses ao território sul-americano em março de 1500. Consideramos este evento relevante. Temos por um evento fundador de um processo histórico que levaria ao surgimento do Brasil. Em contrapartida, os povos indígenas que viviam no território anteriormente à chegada dos portugueses são, de alguma maneira, esquecidos. Para alguns, seus feitos não são relevantes para serem lembrados, de fixá-los em nossa memória.


    A História, portanto, é tudo aquilo que não se passou, tudo aquilo que não caiu no esquecimento. Seu intento é fazer com que a memória sobre certos feitos e eventos se mantenha viva. Fazer seleções de memória, a priori, não se configura como um problema. A injustiça toma forma quando a História se mostra ideológica na seleção da memória. Cometer uma injustiça histórica é selecionar a lembrança de alguns fatos, e se esquecer de outros tendo como critério a discriminação, o preconceito e a intolerância. Memória e esquecimento podem sofrer abusos pela História e quem a pratica.


Estevao Damacena, 31.

 

 

  

Sunday, September 19, 2021

A corte portuguesa em direção ao Brasil: covardia ou astúcia?



O príncipe regente de Portugal, D. João VI, tomou uma decisão muito difícil em 1807. Seu reino estava na mira das temidas tropas francesas de Napoleão Bonaparte. A invasão do reino de Portugal era certa, considerando sua opção em ficar do lado da Inglaterra. Essa opção desagradava em muito o general Bonaparte, afinal a Inglaterra era um arqui-inimigo. Em Lisboa, o imperativo moral que se instaurou foi: fiquemos e lutemos ou fugimos e nos salvemos?

Com a ajuda dos ingleses, D. João VI, sua família, amigos, burocratas, assim como toda a corte portuguesa embarcaram às pressas nas naus que os levariam ao Brasil. A corte ali ficaria por mais de uma década, abalando os hábitos e costumes de um país até então extremamente "fechado" ao mundo.

Considerando os códigos de honra e coragem dos homens bem nascidos, a atitude da Corte Portuguesa pode ser enquadrada como covarde. Ainda que a derrota para as tropas napoleônicas eram dadas como certas, os lusitanos poderiam ter tido mais brio e coragem. Poderiam ter permanecido em suas terras e enfrentado o inimigo com todas suas forças. Ainda que perdessem, sua consciência moral estaria tranquila, afinal não fugiram à luta. Entretanto, sabemos que a decisão preterida foi pela fuga. Fuga a um território distante. Território que ficava do outro lado do Atlântico, chamado Estado do Brasil, àquela altura ainda uma colônia do Império Português. 


Importante pensarmos que esta fuga estava acoplada a um projeto político maior. Projeto que se revelou como um passo de extrema astúcia. D. João e seus estadistas foram capazes de “salvar” o Império Português. Caso tivessem permanecido em Portugal, certamente seriam capturados por Napoleão e seu poderoso exército. Uma vez derrotados, os portugueses “perderiam” não só o reino de Portugal, mas também suas colônias no além-mar, entre elas a colônia Brasileira. Este cenário de perda do Brasil seria catastrófico. A importância econômica da América Portuguesa dentro das linhas de força do Império era mais que indispensável. Os estadistas portugueses foram uníssonos em preservar esse Império, nem que para isso devessem fugir ao Brasil.


Uma vez que o rei e sua corte fogem ao Brasil, transfere-se o centro gravitacional de poder do Império a um território que Napoleão não poderia chegar facilmente. No limite, D. João VI e sua corte, ao migrarem aos trópicos, passaram a seguinte mensagem: “- os senhores querem nos capturar? Pois cruzem o Atlântico e nos achem nas florestas brasileiras”.


Neste cenário de transferência do centro de poder, o gerenciamento do Império Português deixou de ter Lisboa como cidade sede, e passou a ter o Rio de Janeiro como capital imperial. Neste sentido, o Rio de Janeiro foi a primeira e única cidade na América a sediar a capital de um império europeu. Um feito extraordinário sem dúvidas. Não por acaso que o Rio de Janeiro ao longo do tempo foi se tornando uma cidade muito envaidecida, pomposa e até orgulhosa. Este seu passado lhe credenciava a preservar o status de uma eterna "cidade capital".


Se pelo lado simbólico a corte portuguesa fugiu a seu dever moral de enfrentar as tropas napoleônicas, no plano político sua opção pela fuga se revelou em um plano formidável. Em uma só tacada evitou-se um embate direto com um inimigo mais forte, assim como salvaguardou suas posses coloniais no Atlântico e na Ásia. Embora as piadas brasileiras tentem associar os portugueses à figura caricata de serem sempre "burros" e "atrapalhados", no episódio da transferência da corte devemos sublinhar a astúcia e inteligência dos nossos antigos colonizadores.


Estevão Damacena, mestre em História, 29.


A História, memória e o esquecimento.

     Paul Ricouer (1912 – 2005) se constituiu como um dos autores mais proeminentes nas discussões envolvendo feno menologia e he rmenêut...